Em um Brasil onde a intolerância religiosa se alastra de forma preocupante, a obra Okum D’Orin: A poesia que vem do mar, de Martha Sales, surge como um oásis de sensibilidade e resistência. A autora, em um ato de profunda conexão com o sagrado, nos convida a mergulhar em sua experiência pessoal, abrindo portas para a valorização da diversidade religiosa e o combate ao preconceito.
O livro, que transcende a mera expressão artística, traz em si a força ancestral da cultura afro-brasileira, dando voz à Yèyé Omo Eja (Yemanjá) através da prosa poética de Martha. As palavras, inspiradas nas águas férteis de Sergipe, dançam e cantam, criando uma sinergia com a fluidez e a leveza do elemento que as inspirou. As ilustrações em aquarela de Roniery complementam a obra, conferindo-lhe ainda mais beleza e simbolismo. “Okum D’orin” é um convite à imersão no universo da poesia, da ancestralidade, do feminino e do autoconhecimento. É uma obra que celebra a cultura, a espiritualidade e as artes, conectando o leitor com o sagrado que habita em cada um de nós.
TERRA
Atotô!
Onde o sagrado habita
Onde o sagrado abriga
Onde o medo se esvai
Onde o sentido vagueia
Onde a palavra é reza
Onde o silêncio é lei
Onde a terra acolhe
A flor que cai
O joelho que dobra
E toda súplica
Atotô
Em um contexto social onde a intolerância religiosa se manifesta de forma cada vez mais agressiva – o Disque 100 registrou um aumento significativo nas denúncias de intolerância religiosa nos últimos anos – a educação se torna um instrumento fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e acolhedora. É nas escolas que as crianças e jovens têm a oportunidade de conhecer e respeitar diferentes crenças e culturas, desenvolvendo valores como a empatia, o respeito e a tolerância.
ZINGANDO
Sem medo
Atravessemos
E abandonemos
Nossas próprias margens
Pra saber o que existe
Do lado de lá
Só assim
Zingando nessas águas
Destino que se desenha
Aos olhos da proa
Ao sabor do vento
Que assobia
Que dá direção
E sem medo
Atravessemos
Dados da pesquisa da JusRacial revelam que as religiões de matriz africana são as mais afetadas pela intolerância, sendo alvo de discriminação e preconceito em diversos contextos. É preciso agir com urgência para reverter esse quadro, e a educação tem um papel crucial nesse processo. Martha Sales, consciente da importância de seu trabalho, tem levado “Okum D’orin” para as escolas de Sergipe, realizando um trabalho incrível de conscientização e promoção da tolerância religiosa. Através de palestras, debates e oficinas, a autora compartilha sua experiência e dialoga com estudantes e educadores, despertando a curiosidade e o respeito pela diversidade religiosa.
EM SEGREDO
Uterinas tuas águas
Sal da vida
Me dão vida
Libertadoras tuas correntes
Marítimas
Me dão ar
Caudalozas correntezas
Me dão pés
Pra caminhar
Fio de lua
Crescente
Me dá a direção
Espelho d’água
Reflexo
Me dá a visão
Profundos teus mistérios
Em segredo
Me guardam
Ventre acolhedor
Partindo filhos
Do meu destino
Me dá a certeza
A iniciativa de Martha Sales de levar sua obra para as escolas é louvável e inspiradora. “Okum D’orin” tem o potencial de sensibilizar e educar, contribuindo para a formação de cidadãos mais conscientes e tolerantes. Em tempos de intolerância crescente, a arte se torna um instrumento poderoso de transformação social, capaz de promover a empatia, o diálogo e a compreensão. Que a obra de Martha Sales possa servir de exemplo para outros artistas e educadores, e que a poesia continue a ser um instrumento de mudança, abrindo caminhos para um futuro onde a diversidade religiosa seja celebrada e respeitada.
Martha Sales é Iyalorixá e professora licenciada em Sociologia pela Universidade Federal de Sergipe. Especialista em Antropologia pela UFS/NPPGA. Pós graduanda em Cinema e Linguagem Audiovisual. Membro do Núcleo de Pesquisa e Estudos Afro-brasileiros e Indígenas. Membro e sócio-fundadora da Sociedade de Estudos Étinicos, Políticos, Sociais e Culturais Omolàiyé. Sócio-fundadora e Coordenadora do Espaço de Arte, Cultura e Educação Omiró Casa de Mar.
Roniery é graduado em Licenciatura em Artes Visuais, reside em Aracaju, mas é natural de Porto de Folha, Sergipe. Desenvolve seus trabalhos nas técnicas de acrílica sobre madeira ou tela, aquarela, prego, linha sobre madeira, entre outros. Em Okum D’Orin, por sua ligação com as águas, as ilustrações foram feitas com aquarela, trazendo transparência, leveza e frescor para a obra.